Poesias Reunidas
Adélia Prado

TEMÁTICA AUTO-REFLEXIVA

No poema “Leitura”, o eu-lírico viaja, através da leitura, para uma situação prazerosa que remete à sua vida em família. O prazer é enfatizado pela maçã temporã, “a casca vermelha/ de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas/ fora do seu tempo desejadas”. O vermelho da maçã é reafirmado quando é encontrado o pai que tem “os lábios de novo e a cara circulados de sangue”, remetendo a uma sensação de vitalidade. Na situação descrita, o pau não está morto, por isso o eu-lírico afirma que em seu sonho “nunca nada está morto”. Partindo do título do poema, vemos que o sonho do eu-lírico é a própria leitura, ou a própria literatura, capaz de reviver aquilo que já não existe na realidade. A leitura é o processo através do qual “O que não parece vivo, aduba./ O que parece estático, espera”.

“A formalística” é o outro poema que reflete sobre a literatura, mais precisamente sobre o fazer poético. O título remete ao vocabulário da área jurídica, à parte da heuremática que trata da forma dos atos jurídicos, à cautela necessária para assegurar a validade de um ato jurídico. Assim, o poema aparece como parte de um inquérito no qual o acusado é o poeta. É descrita sua rotina em seu gabinete e o trabalho no qual o lápis é seu bisturi. No equilíbrio entre trabalho e inspiração, o poeta ainda aguarda suas musas inspiradoras. Seu crime é roubar de todos nós tudo aquilo que observa através das palavras. Através dos versos “O jovem poeta,/ fedendo a suicídio e glória”, vemos que o crime do poeta também é sua glória, já que em sua criação literária aproxima-se ao Deus impecável, mas sem aceitá-lo ou nomeá-lo como o grande criador.

EROTISMO/SEXUALIDADE

“A maçã no escuro”

O signo da maçã reaparece no poema “A maçã no escuro”, remetendo ao fruto proibido e à sexualidade feminina. O poema apresenta um ambiente secreto, um cômodo grande, no qual o eu-lírico relembra ter-se escondido na infância. Nesse armazém antigo, a “menina-crisálida” descobre a sua sexualidade. A sensação do proibido é reafirmada pela escuridão dentro do armazém antigo, como uma “ilha de sombra em meio do dia aberto”. A menina está sentada em cima das sacas de cereais numa atitude de travessura infantil, balançado as pernas. Vários termos remetem ao erotismo da menina em descoberta, como o sexo “turgindo-se em sapiência,/ pleno de si, mas com fome”. No fim do poema, o eu-lírico identifica-se no presente, já adulta, para fazer uma irônica afirmação: afirma que quem a pensa com pensamento de homem é a parte que nela não pensa e vai da cintura aos pés. Ao ironizar o fato de a mulher ser muitas vezes vista só como objeto sexual pelos homens, só por sua “maçã no escuro”, a poeta também identifica os homens com a parte que não pensa na mulher.

“Sagração”

Em “Sagração”, a temática da descoberta da sexualidade, do limiar entre menina e mulher, também é desenvolvida. Como em “A leitura”, o ambiente familiar e o cotidiano aparecem novamente, mas agora para focalizar a menina que experimenta os vestidos para conversar com o moço que sussurra “quero comer suas pernas, sua barriga, seus peitos, quero tocar você”. Os versos que se referem à adolescente, que se prepara para falar com o moço e sente as vibrações da carne entoarem hinos, são intercalados com os chamados da mãe para cuidar do irmão pequeno. A própria presença do bebê de quem a menina precisa trocar as fraldas já remete à mulher adulta, que através da relação sexual pode gerar uma criança. Assim, o instinto sexual é exposto lado a lado com a dura realidade da responsabilidade de cuidar da criança. O título “Sagração” remete a uma cerimônia religiosa, a um rito, e se refere tanto ao ritual de passagem da adolescência, no qual a menina chora “de prazer e vergonha” ao descobrir-se mulher, quanto à própria relação sexual, que o moço descreve no último verso: “- E é tão simples e nu, continuou,/ uma mulher fornida em sua cama/ pode louvar a Deus,/sendo apenas fornida e prazerosa”.

TEMÁTICA SOCIAL

“Agora, ó José”

O poema “Agora, ó José” dialoga com dois poemas de Carlos Drummond de Andrade: “José” e “No meio do caminho”, ambos de temática social. Como Drummond, Adélia Prado recupera o destino do homem comum, sem perspectiva. O nome José utilizado por Drummond aparece como símbolo dessa condição social. A poeta, no entanto, funde os dois poemas de Drummond ao dizer a José que “No meio do caminho tinha uma pedra”, lembrando os obstáculos na dura trajetória deste indivíduo. No entanto, dois elementos são acrescidos ao poema: a perspectiva bíblica e a presença da mulher. A palavra pedra remete à frase bíblica que é dita ao apóstolo Pedro, na qual Cristo afirma que “sobre esta pedra edificará a minha igreja”, a qual aparece no seguinte verso: “Tu és pedra e sobre esta pedra”. Adélia Prado inova ao inserir a mulher de José, apagada no poema de Drummond. Em “Agora, ó José”, o personagem possui uma mulher “tão histérica,/ tão histórica”, que o desanima. Esses versos que aparentemente estão apenas em busca de rima trazem a problemática da mulher dentro da sociedade. A histeria não é evocada por acaso: remete à época em que as mulheres que procuravam expor um pouco mais suas idéias, sentimentos e sua sexualidade eram consideradas histéricas. Também insere a mulher enquanto um ser histórico que é tão atingido pela falta de perspectiva social quanto seu marido. No entanto, José tenta fugir de mais esse problema e passeia no quarteirão. O título do poema remete ao presente, às ações praticadas por José no agora. No final, o eu-lírico pede que José durma com sua mulher, e demonstra que a referência religiosa da pedra aparece para deixar José novamente sem perspectiva, pois “O reino do céu é semelhante a um homem/ como você, José”.