As Faces Poéticas de Gregório de Matos

 

Estética Barroca

 Nas regiões litorâneas, o barroco diferenciou-se do mineiro.

Ligado ao ciclo da cana-de-açúcar, o barroco nordestino aproximou-se da aristocracia rural, exuberante e pomposa, estilo que se refletiu na riqueza das construções eclesiásticas e nas grandes varandas das casas-grandes e santas casas.

 

Não confunda barroco arquitetônico verificado em Ouro Preto (MG) e no Pelourinho (região central da cidade de Salvador - BA) com o barroco literário de Vieira e Gregório de Matos Guerra.

 

  Biografia

 Aos Vícios

 Eu sou aquele , que os passados anos

 Cantei na minha lira maldizente

 Torpezas do Brasil , vícios e enganos

 

Matos, Gregório de (1633-1696), poeta sacro e satírico do Brasil colonial. Nasceu em Salvador, Bahia, então capital da colônia, e faleceu em Recife, Pernambuco. Filho de abastados proprietários rurais da região de Salvador, estudou com os jesuítas, bacharelando-se em leis na Universidade de Coimbra. Ingressou na carreira judiciária, tendo sido Juiz do Crime e Juiz de Órfãos e Ausentes em Portugal.

 

 Ligado ao grupo do futuro rei D. Pedro II, que disputava o poder com D. Afonso VI, Gregório de Matos destinava-se a brilhante carreira burocrática e política, mas perdeu o favor real por motivos não esclarecidos. Obviamente que fora algum desafeto vítima de um de seus sonetos satíricos.

 

Retornou ao Brasil em 1680. Casou-se, já maduro, em 1684. Extremamente crítico, advogou sem sucesso financeiro, em Salvador.

 

 Foi perseguido na Bahia e em Portugal. Acabou sendo desterrado para Angola, de onde retornou ao Brasil para viver em Pernambuco. Fez poesia lírica, sacra, profana e satírica, em estilo barroco, com influência gongórica.

 

Suas sátiras criticavam pessoas eminentes como juízes, desembargadores, senhores de engenho, nobres, governadores, eclesiásticos e seus parentes, pelo que acabou recebendo a alcunha de "Boca do Inferno".

 

Suas poesias retrataram, também, a vida social colonial, especialmente o comportamento dos diferentes grupos sociais_ e este aspecto interessa-nos de maneira próxima frente ao vestibular. A edição de sua Obras Completas foram dificultadas pelos esforços necessários à identificação da autoria dos textos.

 

Estrutura da obra

 

A obra divide-se em:

 

Poesia de Circunstância Poesia Amorosa Poesia Religiosa

Satírica Lírica

Encomiástica Erótico-irônica

 

DICA: Leitura de apoio:

 

Boca do inferno de Ana Miranda

 

 Estrutura Textual

 

Obra coroada de paradoxos e antíteses, sintetiza o melhor produzido na poética seiscentista nacional. Sem dúvida Gregório é o primeiro grande poeta nacional, e com méritos próprios fez autênticas tanto a vida quanto sua poesia.

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Enredo Síntese: Poesia de circunstância - Satírica

 

De dois ff se compõe esta cidade a meu ver um furtar, outro foder

 

Gregório de Matos

 

Personagens principais: Cidade de Salvador, burguesia e cleros baianos/ o Brasil/ os negros/ Floralva

 

Nesta parte da obra temos a poesia dedicada à cidade de Bahia, observe a cifrada linguagem de paradoxos do retrato do local e de seus componentes:

 

Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia

 

Soneto

 

A cada canto um grande conselheiro,

 

que nos quer governar cabana e vinha;

 

Não sabem governar sua cozinha,

 

E podem governar o mundo inteiro.

 

...

 

Em cada porta um bem freqüente olheiro,

 

Que a vida do vizinho e da vizinha

 

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

 

Para o levar à praça e ao terreiro.

 

...

 

Muitos mulatos desavergonhados,

 

Trazidos sob os pés os homens nobres,

 

Posta nas palmas toda a picardia,

 

Estupendas usuras nos mercados,

 

Todos os que não furtam muito pobres:

 

E eis aqui a cidade da Bahia.

 

Aqui o poeta mostra o desprezo da época perante a miséria:

 

Para a tropa do trapo vazo a tripa,

 

E mais não digo, porque a Musa topa

 

Em apa, epa, ipa, opa,upa.

 

Descreve com mais individuação a fidúcia com que os estranhos sobem a arruinar sua república

 

...

 

Sempre vêem, e sempre calam,

 

até que Deus lhes depare

 

quem lhes faça de justiça

 

esta sátira à cidade

 

...

 

Tão queimada e destruída

 

te vejas, torpe cidade,

 

como Sodoma e Gomorra,

 

duas cidades infames .

 

Redargue o poeta a doutrina ou máxima do bem viver, que muitos políticos seguem, de envolver-se na confusão de homens perdidos e néscios, para passar com menos incômodo esta humana vida

 

Eia! Estamos na Bahia ,

 

onde agrada a adulação,

 

onde a verdade é baldão,

 

e a virtude hipocrisia:

 

sigamos esta harmonia

 

de tão fátua consonância,

 

e inda que seja ignorância

 

seguir erros conhecidos

 

sejam-me a mim permitidos,

 

se em ser besta está a ganância.

 

Queixa-se a Bahia por seu bastante procurador, confessando que as culpas, que lhe increpam, não são suas, mas sim dos viciosos moradores que em si alverga

 

Era dourada parece,

 

Mas não é como eu a pinto,

 

porque debaixo deste ouro

 

tem as fezes escondido.

 

Observe o sarcasmo do autor, o trato irônico com a solidariedade

 

Desejo que todos amem

 

seja pobre ou seja rico,

 

e se contentem com a sorte

 

que têm e estão possuindo.

 

...

 

Quero finalmente que

 

todos quantos têm ouvido,

 

pelas obras que fizerem

 

vão para o Céu direitinhos .

 

Fingindo o poeta que acode pelas honras da cidade, entra a fazer justiça em seus moradores, sinalando-lhes os vícios, em que alguns deles se depravavam

 

A donzela embiocada,

 

Mal trajada e mal comida,

 

antes quer na sua vida

 

ter saia, que ser honrada:

 

à pública amancebada

 

por manter a negra honrinha,

 

e se lho sabe a vizinha,

 

e lho ouve a clerezia,

 

dão com ela na enxovia,

 

e paga a pena da lei:

 

esta é a justiça, que manda El- Rei.

 

À despedida do mau governo que fez este governador

 

Soneto

 

Senhor Antão de Sousa de Meneses ,

 

Quem sobe a alto lugar , que não merece ,

 

Homem sobe , asno vai , burro parece,

 

Que o subir é desgraça muitas vezes .

 

...

 

Homem sei eu que foi Vossenhoria ,

 

Quando o pisava da fortuna a roda ,

 

Burro foi ao subir tão alto clima .

 

...

 

Pois vá descendo do alto , onde jazia ;

 

Verá quanto melhor se lhe acomoda

 

Ser homem em baixo , do que burro em cima .

 

Ao Vigário da Vila de São Francisco , que , por ser demasiado ambicioso , era muito malquisto dos fregueses

 

Reverendo vigário ,

 

Que é título de zotes ordinário ,

 

Como sendo tão bobo ,

 

E tendo tão larguíssimas orelhas ,

 

Fogem vossas ovelhas

 

De vós , como se fôsseis voraz lobo ?

 

Descreve a Vida Escolástica

 

Soneto

 

Mancebo sem dinheiro , bom barrete ,

 

Medíocre o vestido , bom sapato ,

 

Meias velhas , calção de esfola - gato ,

 

Cabelo penteado , bom topete ;

 

...

 

A putinha aldeã achada em feira ,

 

Eterno murmurar de alheias famas ,

 

Soneto infame , sátira elegante ;

 

...

 

Cartinhas de trocado para a freira ,

 

Comer boi , ser Quixote com as damas ,

 

Pouco estudo : isto é ser estudante .

 

Observações críticas sobre várias matérias, por ocasião do cometa aparecido em 1680

 

Que o pobre e o rico namore ,

 

E que com esta porfia ,

 

O pobre alegre se ria

 

E o rico triste se chore :

 

E que o presumido more

 

Em palácio sem boleta ,

 

E por não ter que lhe meta ,

 

O tenha cheio de vento :

 

Pode ser ; mas ao intento

 

Efeitos são do cometa .

 

Embarcado já o poeta para o seu degredo , e postos os olhos na sua ingrata pátria , lhe canta desde o mar as despedidas

 

Romance

 

Adeus , praia ; adeus , cidade ,

 

e agora me deverás ,

 

a Deus velhaca , dar eu

 

a quem devo ao demo dar .

 

...

 

Adeus , povo ; adeus , Bahia,

 

digo , canalha infernal ,

 

e não falo na nobreza ,

 

tábula em que se não dá .

 

 

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Enredo_ Síntese: Poesia de circunstância - Encomiástica

 

Ilha de Itaparica, farta de putas, rica de baleias

 

Gregório de Matos

 

Personagens principais: Desembargador Belchior da Cunha Brochado, Governador Antônio Luís, Arcebispo João Franco de Oliveira, Ilha de Gonçalo Dais, Ilha de Itaparica, Francisco Lamberto e outros

 

É a poesia mais simples de Gregório, dotadas de um cunho profundamente elogioso o poeta se mostra agradecido aos muitos que o auxiliaram.

 

Descreve a ilha de Itaparica com sua aprazível fertilidade, e louva de caminho ao capitão Luís Carneiro, homem honrado e liberal, em cuja casa se hospedou.

 

Soneto

 

Ilha de Itaparica, alvas areias,

 

Alegres praias, frescas, deleitosas,

 

Ricos polvos, lagostas deliciosas,

 

Farta de Putas, rica de baleias.

 

As putas, tais ou quais, não são más preias,

 

Pícaras, ledas, brandas, carinhosas

 

Para o jantar as carnes saborosas,

 

O pescado excelente para as ceias.

 

...

 

 

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Enredo_ Síntese: Poesia Amorosa - Lírica

 

Lírica é a poesia que cuida dos elevados sentimentos do poeta, não deixará o mesmo de ser sentimental e subjetivista nesta temática tão comum aos poetas.

 

Pondera agora com mais atenção a formosura de D. ângela

 

Olhos meus, disse então por defender-me,

 

Se a beleza heis de ver para matar-me,

 

Antes olhos cegueis, do que eu perder-me.

 

...

 

Chora um bem perdido, porque o desconheceu na posse

 

Soneto

 

Porque não merecia o que lograva,

 

Deixei como ignorante o bem que tinha,

 

Vim sem considerar aonde vinha,

 

Deixei sem atender o que deixava:

 

Suspiro agora em vào o que gozava,

 

Quando não me aproveita a pena minha,

 

Que quem errou sem ver o que convinha,

 

Ou entendia pouco, ou pouco amava.

 

Padeça agora, e morra suspirando

 

O mal, que passo, o bem que possuía;

 

Pague no mal presente o bem passado.

 

Que quem podia, e não quis viver gozando

 

Confesse, que esta pena merecia,

 

E morra, quando menos confessado.

 

Aos afetos, e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem

 

Soneto

 

Ardor em firme coração nascido;

 

Pranto por belos olhos derramado;

 

Incêndio em mares de água disfarçado;

 

Rio de neve em fogo convertido:

 

Tu, que me peito abrasas escondido;

 

Tu, que em um rrosto corres desatado;

 

Quando fogo, em cristais aprisionado;

 

Quando cristal em chamas derretido.

 

 

 

Se és fogo como passas brandamente,

 

Se és neve, como queimas com porfia?

 

Mas ai, que Amor em ti prudente!

 

Pois para temperar a tirania,

 

Como quis que aqui fosse a neve ardente,

 

Permitiu parecesse a chama fria.

 

Aos amores do autor com D. Brites (reza a lenda que o poeta cantou uma freira e ao fim, queimou a mão no colchão incendiado)

 

Fizeste aplicar ao fogo a neve

 

De uma mão branca; que livrar-se entende

 

Da chama, de quem foi desprezo breve.

 

Mas ai! Que se na neve Amor se acende,

 

Como de si esquecida a mão se atreve

 

A apagar o que o Amor na neve incende?

 

Floralva

 

Ausentou-se Floralva, e ocultou

 

A luz, com que nas festas assistiu:

 

Tudo em trevas na ausência confundiu

 

Porque consigo todo o sol levou.

 

Enredo_ Síntese: Poesia Amorosa - Erótico-irônica

 

O lado carnal e libidinoso de Gregório acode-nos de pronto, e o que era lírico, volve a nada. Veja como se refere o poeta ao pênis em carta dirigido a freiras que perguntaram-lhe o que era priapo

 

A uma freira, que satirizando a delgada fisiononomia do poeta lhe chamou "Pica-flor"

 

Décima

 

Se Pica-flor me chamais,

 

Pica-flor aceito ser,

 

me resta agora saber,

 

se no nome, que me dais, meteis a flor, que guardais

 

no passarinho melhor!

 

Se me dais este favor,

 

sendo só de mim o Pica,

 

e o mais vosso, claro fica,

 

que fico então Pica-flor.

 

Décimas

 

Bela Floralva, Se Amor me fizesse abelha um dia,

 

em todo o tempo estaria picando na vossa flor:

 

Necessidades forçosas da natureza humana

 

 

 

Descarto-me da tronga que me chupa,

 

Corro por um conchego todo o mapa,

 

O ar da feia me arrebata a capa,

 

O gadanho da limpa até a garupa.

 

...

 

Amigo, quem se alimpa da carepa,

 

Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,

 

Ou faz da sua mão sua cachopa.

 

 

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Enredo_ Síntese: Poesia religiosa

 

O melhor da poética gregoriana encontra-se nesta parte da obra, o elevado conflito teocêntrico versus antropocentrismo se resvala em uma poética dotada de inúmeros paradoxos, antíteses, hipérboles fazendo com que o leitor esmiuce no mais fundo o malabarismo de símbolos poéticos para encontrar o real signo do corpo textual.

 

A Jesus Cristo Nosso Senhor

 

Soneto

 

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,

 

Da vossa alta clemência me despido;

 

Porque, quanto mais tenho delinquido,

 

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

 

...

 

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,

 

Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,

 

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

Buscando a Cristo

 

A vós correndo vou, braços sagrados,

 

Nessa cruz sacrossanta descobertos,

 

Que, para receber-me estais abertos

 

E por não castigar-me, estais cravados.

 

Para uma maior compreensão da obra de Gregório de Matos indicamos ao aluno uma forte contextualização da época e um atento olhar sobre a troca de classes sociais no período estudado o ferino verbo de Gregório de Matos ataca a burocracia estrangeira nascente no país e a decadência dos grandes proprietários rurais.

 

· Traços marcantes da obra:

 

· Solidariedade ao proteger o povo excluído na denúncia das maldades dos poderosos

 

· O trabalho ambíguo típico do barroco, com muito erotismo e ironia

 

· Atualidade dos temas (universalismo da obra)

 

· Características predominantes na linguagem:

 

· Malabarismos conceituais nos signos (paradoxo e antíteses)

 

· Vocabulário requintado e chulo mesclados

 

· A musicalidade cantada dos versos

 

· Sarcasmo e nacionalismo denunciador (típico dos pré-modernos)

 

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